Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026

Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 199 No livro Dos Humanos aos Humanos Digitais e os Não Humanos – A Nova Ordem Social da Coexistência, Margareth Boarini, pesquisadora e pós-doutora em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), resgata o mito de Hefesto, a divindade grega protetora dos ferreiros, em cujo palácio viviam seres mecânicos encarregados de executar trabalhos repetitivos. Personagens semelhantes estão presentes na mitologia chinesa e na literatura britânica, como a Criatura do doutor Frankenstein na obra de Mary Shelley. Ao longo dos séculos, essas “figuras robotizadas” evoluíram de meros tarefeiros para entidades capazes de desenvolver habilidades cognitivas, como ocorre no atual processo de machine learning – um dos mais vistosos componentes do arsenal tecnológico das plataformas de IA. Os braços mecânicos e robôs, que começaram a performar em tarefas pesadas, hoje já atuam em áreas nobres e de forma autônoma, como a medicina. O pioneirismo coube à China, onde entrou em funcionamento o Agente Hospital, inteiramente gerido por IA. Inaugurada em 2025, a unidade é fruto do trabalho de pesquisadores da Universidade Tsinghua, de Pequim. Mas não é preciso atravessar o mundo para perceber e entender a forte presença da IA em nosso dia a dia. Aos poucos, e sem que muitos de nós tivéssemos dado conta, a interlocução com empresas do setor financeiro ou operadoras de serviços massivos, como concessionárias de água e energia, foi sendo cada vez mais automatizada. Eu mesmo obtive um empréstimo consignado no banco BMG “conversando” com o chatbot da instituição no WhatsApp. Nenhum outro humano participou da transação! Visto por esse prisma, pode-se pensar que a IA e suas inúmeras variáveis tendem a cruzar fronteiras e assumir o papel do humano ou se incorporar ao nosso corpo de uma forma tão crescente que nos transformaremos em ciborgues. Trata-se, naturalmente, de uma visão um pouco radical. Mas é fato que a simbiose entre humanos, máquinas e aplicativos tende a ir além da capacidade de nos comunicarmos com uma máquina ou um aplicativo, possibilitando o aparecimento dos humanos digitais. Diferentemente dos avatares, diz a pesquisadora da PUC-SP, esses seres são dotados de complexidades e repertórios capazes de simular interações tão realistas quanto as que acontecem entre pessoas de carne e osso. Margareth não é uma voz isolada no alerta sobre os efeitos, positivos e negativos, das tecnologias em nosso cotidiano. Como visto na página 197, a adoção da IA em larga escala tem sido um dos motivos alegados para demissões em massa em gigantes da tecnologia e a promessa de extinção de profissões ou ocupações nos próximos anos. “O risco de substituição é real e vai desde o chão de fábrica até tarefas mais elaboradas”, aponta. É fato que a tensão homem-máquina-aplicativo sempre foi uma constante na história da humanidade. Ganhou fôlego a partir da Revolução Industrial e, desde então, só fez crescer. Se em segmentos sensíveis, como a área médica e a financeira, a IA já domina a cena, o que esperar de setores como o de comunicação, um dos mais afetados pela popularização das ferramentas da Tecnologia da Informação (TI)? De fato, a pressão existe. Mas diversas agências vêm investindo em adaptações de seu modelo de operação (conheça algumas experiências a partir da página 205), com vistas a acelerar o processo de aprendizado dessa nova forma de atuação. “A digitalização teve um grande impacto no setor, pois mudou a forma de pensar, planejar e estruturar a comunicação”, destaca Carolina Terra, pesquisadora e professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O que ninguém imagina é que esse business deixe de existir ou perca a relevância, independentemente se operado por humanos digitais (ciborgues) ou não humanos, como pontua a pesquisadora Margareth. Margareth Boarini, pesquisadora: os humanos digitais são dotados de complexidades e repertórios capazes de simular interações tão realistas quanto as que acontecem entre pessoas de carne e osso.

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