6 Anuário Abipeças e Sindipeças Abipeças and Sindipeças Yearbook 2026 Palavra do Presidente Cláudio Sahad Presidente da Abipeças e do Sindipeças O enfrentamento dos entraves sistêmicos e a construção do futuro Precisamos de juros menores. O flagelo da Selic estratosférica estrangula as oportunidades de construirmos um futuro virtuoso. O bem-estar e um ambiente de negócios saudável dependem de estabilidade econômica, ancorada no controle dos gastos públicos, inflação moderada, câmbio competitivo e juros menores. Sem as condições macroeconômicas ideais para um crescimento sustentável, seguiremos abaixo do potencial da nossa economia e do crescimento mundial. Os números falam por si. De acordo com a Serasa Experian, registrou-se volume histórico de pedidos de recuperação judicial em 2025. Foram 2.466 empresas recorrendo a esse mecanismo, alta de 13% em relação ao ano anterior, totalizando estoque de 5.680 empresas nessa situação. Paralelamente, dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontam recorde no endividamento das famílias brasileiras, com cerca de 80 milhões de pessoas inadimplentes. Proposições circunstanciais podem trazer alívio no curto prazo, porém, sem atacar a raiz do problema, não oferecem solução duradoura. Para avançar de maneira vigorosa e com redução das desigualdades, é imprescindível alavancar nosso crescimento em ganhos de produtividade, superando os impasses que travam nosso desenvolvimento. Causam espanto e perplexidade as informações apuradas por organismos internacionais sobre a produtividade do trabalho no Brasil. Segundo a Organização Mundial do Trabalho (OIT), o Brasil ocupa a 94.ª posição num ranking que mostra a produtividade do trabalho em 184 países. Na relação produto/horas trabalhadas, enquanto o G7 registrou média de US$ 74,6 em 2025, o Brasil estagnou em apenas US$ 21,2. Esse resultado nos mantém distantes das economias desenvolvidas e atrás de vizinhos sul-americanos, como Uruguai (US$ 38), Chile (US$ 34,4) e Argentina (US$ 33,8). Superar esse quadro requer o combate aos entraves sistêmicos. Distorções relacionadas à elevada carga tributária – a despeito da transição para o novo modelo –, à burocracia enraizada, à insegurança jurídica e patrimonial, à baixa qualidade da educação, às restrições na oferta de crédito e, por fim, às elevadas taxas de juros demandam enfrentamento recorrente, incorporadas em um projeto de nação. Somam-se a essas dificuldades proposições que pressionam o ambiente corporativo, a exemplo do fim da escala 6x1 e a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, com a manutenção dos salários. Da eclosão dos conflitos no Leste Europeu à guerra no Irã, atravessada pelas ações protecionistas do governo americano, a geopolítica mundial continua exigindo vigilância constante, diálogo intenso e maior concertação política. Além disso, a consagração do Acordo Mercosul-UE sinaliza vantagens e ameaças para a indústria brasileira. No setor automotivo, sabemos que haverá adaptações no modelo de negócios, aumento da consolidação de empresas e necessidade de incremento dos investimentos em PD&I para suportar a concorrência europeia. Paralelamente, a estratégia das montadoras chinesas está evoluindo para a internacionalização da produção, alterando os rumos do setor. Esse movimento supera o modelo focado apenas em exportação, impulsionado pela desaceleração econômica interna, guerra de preços na China e altas tarifas impostas por EUA e Europa. Estudo da AlixPartners – empresa de assessoria financeira e consultoria global – revela que as fabricantes chinesas planejam triplicar a produção no exterior, passando de cerca de 1,2 milhão para 3,4 milhões de veículos até 2030. Com foco em 16 países, Leste Europeu e América Latina despontam como os principais destinos. Na América Latina, as marcas chinesas já respondem por 20% das vendas totais de veículos e por 50% dos veículos elétricos. A eletrificação, digitalização com IA e maior conectividade estão transformando o setor automotivo mundial, como sabemos, impondo desafios à cadeia brasileira de fornecedores e delineando novos modelos de negócios focados em serviços e soluções de mobilidade, além da venda do veículo. A Abipeças e o Sindipeças acompanham de perto esses temas, propondo rumos e levando sugestões às autoridades públicas. Apesar do atraso nas reformas estruturais, o Brasil pode liderar o movimento da descarbonização ao aproveitar sua matriz energética limpa e a disponibilidade de minerais críticos. Que possamos ter sabedoria e resiliência para enfrentar e vencer todos esses desafios, a fim de que os próximos anos sejam marcados por prosperidade e avanços.
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