Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026

Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 21 A Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública) surgiu há dez anos em um salão de festas de um prédio residencial na Asa Norte, em Brasília. De certo modo, foi o desdobramento de um processo de discussão sobre a necessidade de fortalecer a comunicação na área pública para ajudar o cidadão a acessar o suporte do Estado. Havia a percepção de que esse campo, embora já reunisse produção acadêmica, experiências institucionais e profissionais espalhados pelo País, ainda carecia de articulação e um espaço permanente de cooperação para avançar. Os antecedentes estavam nos debates entre profissionais e acadêmicos sobre a necessidade de superar a noção tradicional de comunicação governamental, incorporando ao debate brasileiro as ideias europeias de comunicação pública. Esse movimento estimulara a publicação de artigos e livros, além da realização de pesquisas. Houve ainda a implantação de uma agenda de comunicação pública na Secom da Presidência da República, que resultou na criação de uma diretoria de Comunicação Pública e, depois, do site Conexão Pública, voltado à comunicação de interesse público. Foi desse percurso que amadureceu a ideia de criar uma associação nacional capaz de reunir profissionais de diferentes áreas e estados em torno de uma agenda comum. A formalização ocorreu em 2016, quando cerca de dez profissionais de vários estados e do Distrito Federal assinaram a ata de fundação da ABCPública. Orientação pelo cidadão e pelo interesse público Desde o início, a associação recusou o papel de entidade corporativa. Ela nasceu vinculada a uma concepção de comunicação pública centrada no cidadão e no interesse coletivo. Esse ponto ajuda a entender sua identidade: a ABCPública organiza-se em torno da qualificação da comunicação voltada ao exercício da cidadania. Seu papel foi sendo construído como espaço de reflexão, ”tematização”, produção de referências, circulação de conhecimento e fortalecimento profissional de quem atua na interface entre Estado e sociedade. Na origem dessa mobilização está um desafio persistente: a forte atração do poder público brasileiro, em todas as instâncias e níveis, pela propaganda autorreferencial. Essa lógica foi solidamente moldada ao longo de 36 anos – somados os períodos da Era Vargas e do regime militar –, quando se estruturou um modelo de comunicação a serviço do poder, e não do cidadão. Nesses ciclos, a comunicação estatal foi organizada como instrumento de legitimação política, marcada por centralização, controle da informação e uso sistemático da propaganda para exaltar governos, supostos feitos e lideranças. Essa herança deixou marcas profundas na cultura administrativa brasileira. Ela ajuda a explicar por que, ainda hoje, muitos associam comunicação na área pública à construção de imagem e à ocupação, por vezes aleatória, do espaço público, em vez de entendê-la como dever de informar, esclarecer, orientar, ouvir e prestar contas. A visão de comunicação como mera divulgação não é apenas tosca, mas também improdutiva. Comunicação é constitutiva da ação do Estado. Isso significa que ela é orgânica, natural e integra a própria capacidade de o poder público agir bem. Por isso, sua gestão deve ser estratégica e orientada para o cumprimento da missão institucional, com a consciência de que comunicar é responsabilidade de todos os integrantes da instituição pública e deve servir exclusivamente ao interesse público. Afinal, uma política pública só funciona plenamente quando o cidadão conhece e entende seu objetivo, sabe como acessar serviços, consegue seguir orientações, reconhece seus direitos e encontra canais para tirar dúvidas, oferecer retorno e participar. Quando integrada à ação estatal, a comunicação ajuda o Estado a formular melhor, implementar com mais qualidade, reduzir erros, ampliar a adesão, corrigir rumos e aumentar a efetividade das políticas públicas. Distanciamento entre Estado e sociedade O distanciamento Estado-sociedade é uma consequência da tradição narcisística. Em estudo que realizamos em 2023 com gestores de assembleias legislativas, a dificuldade de conexão com a sociedade surge entre os principais desafios, associada ao desconhecimento sobre o papel do Legislativo, à desconfiança em relação à política e à baixa capacidade de engajamento da população. O mesmo apareceu em pesquisa feita em 2025 com gestores de comunicação de prefeituras de capitais. Mais uma vez, um problema central era a dificuldade de estabelecer conexão efetiva com os cidadãos, em um ambiente de atenção dispersa, perda de credibilidade e baixa capacidade de

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