Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 22 mobilização. O diagnóstico indica um desencaixe persistente entre o que o Estado faz ou diz e o que a sociedade percebe, entende e valoriza. Mas pode ser pior, talvez consequência disso. Pesquisa do Pew Research Center, de 2024, mostrou que 54% dos brasileiros estão insatisfeitos com o funcionamento da democracia. Quase metade diz não confiar no governo para fazer o que é certo para o País. E 81% afirmam que, em geral, não se pode confiar nas outras pessoas. É um quadro que mistura ceticismo com as instituições, desgaste do debate público e enfraquecimento dos vínculos de confiança. Algo semelhante aparece na pesquisa Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo (2016-2017), da Fundação Perseu Abramo. O estudo sugere que a leitura clássica da política como confronto entre patrões e empregados foi substituída por outro tipo de embate: entre Estado e sociedade. Isso ajuda a reposicionar o problema. Não se trata apenas de falta de informação, mas também de falta de conexão e confiança, indicando uma potencial crise de legitimidade. O problema é mais do que distribuir informação, é fazer com que ela chegue com sentido, utilidade e credibilidade. O cidadão não parece rejeitar o Estado ou a vida pública em si. O que aparece, com mais frequência, é a frustração diante de instituições distantes, inacessíveis, que falam para si mesmas, escutam pouco e têm dificuldade de se mostrar úteis na vida concreta das pessoas. A dificuldade de o Estado chegar ao cidadão esbarra também em limites mais profundos de compreensão pública. O Brasil convive há muito tempo com déficits de educação formal e leitura da própria realidade. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional de 2024, 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais. Já no estudo Perigos da Percepção 2017, da Ipsos, realizado em 38 países, o Brasil apareceu entre os países que mais erram ao estimar fatos básicos da vida social, ocupando o 2º lugar no índice de percepção equivocada. Uma rede que amadureceu É nesse cenário que a ABCPública faz sentido. Ela nasce da percepção de que não basta atualizar ferramentas, melhorar técnicas, ampliar canais ou divulgar mais. É preciso enfrentar um problema mais fundo: a dificuldade de foco para construir uma comunicação pública capaz de aproximar Estado e sociedade, produzir entendimento e fortalecer a cidadania. Ao longo de sua evolução, a ABCPública ampliou seu raio de ação em pelo menos três frentes. A primeira foi a formação de rede, conectando comunicadores, pesquisadores, estudantes e gestores públicos. A segunda foi a produção e a curadoria de conhecimento, algo visível na biblioteca aberta mantida pela associação, que reúne centenas de artigos científicos, livros, teses, relatórios e publicações próprias sobre o tema. A terceira foi a ocupação do debate público por meio de congressos, guias, cartas de conjuntura, recomendações e posicionamentos sobre temas estruturais da área. Em outras palavras, a ABCPública deixou de ser apenas um ponto de articulação para se tornar também uma instância de formulação, difusão e legitimação do campo da comunicação pública no Brasil. Busca tematizar a comunicação pública para ampliar a compreensão de seu papel e de seu potencial como fator de desenvolvimento social. Ao longo desses dez anos, a ABCPública passou a atuar para qualificar práticas, apoiar gestores na prestação de contas à sociedade, defender princípios de transparência, estimular parcerias e oferecer referências aplicadas ao cotidiano das instituições. O sentido da entidade está aí: contribuir para que a comunicação na área pública deixe de ser tratada como apêndice operacional e passe a ser compreendida como dimensão constitutiva estratégica da relação entre Estado, políticas públicas e cidadania, capaz não apenas de distribuir informação, mas fazer as instituições funcionarem melhor e ajudarem o brasileiro a exercer a cidadania. Hoje, a atuação da ABCPública aparece de forma concreta em temas como linguagem simples, acesso à informação, políticas de comunicação, comunicação em crises, relacionamento digital com o cidadão e valorização do comunicador público. A associação também tem investido fortemente em capacitação, como a criação recente da Escola ABCPública. Em paralelo, mantém atuação pública por meio de recomendações, cartas de conjuntura, congressos e diálogo com órgãos de Estado e redes de gestores. O quadro é o de uma entidade que amadureceu: continua sendo espaço de encontro e defesa de princípios, mas passou também a atuar como formuladora, articuladora nacional e provedora de formação aplicada para um campo que ainda busca mais reconhecimento e institucionalidade no Brasil. E permanece aberta a parcerias, à incorporação de novos participantes, ideias e alianças, reforçando seu papel na consolidação da comunicação pública como campo profissional, institucional e democrático no País. ABCPública
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