Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 299 Seria leviano avançar na discussão sobre o programa de thought leadership (liderança de pensamento) sem o apoio de uma referência intelectual que tenha, verdadeiramente, influenciado a humanidade com o seu pensamento. No contexto contemporâneo da comunicação, parece-nos apropriado ter ao nosso lado nesta escrita o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995), grande expoente do pós-estruturalismo, que nos afeta profundamente com o conceito de pensamento nômade. Distante de teorias que envolvem a convencional representação do real, Deleuze propõe pensar o pensamento como “máquina de guerra”, que opera fora dos dispositivos de controle e age como potência criadora de modos de existência. Afirma que o pensamento não é o reconhecimento da mesma coisa, mas, sim, da “repetição da diferença”, e nos convoca a pensar: “Só se pensa porque se é forçado”, afirma em Proust e os Signos, escrito em 1964. E completa: “O ato de pensar não decorre de uma simples possibilidade natural; é, ao contrário, a única criação verdadeira”. Estamos todos forçados a pensar. Não se pretende aplicar o pensamento de Deleuze às estratégias da comunicação e às dimensões da reputação corporativas. A intenção é arriscar alguma aproximação das proposições do pensador francês com o conceito contemporâneo de thought leadership, nascido nos Estados Unidos nos anos 1990, que afirma a posição de líder intelectual ao executivo e à marca, em sua área de atuação, quando se manifestam com ideias originais e apontam para novos caminhos como possibilidades para evitar a estagnação da existência humana – e, no fim das contas, traz ganhos ao negócio. O posicionamento de destaque depende de autoridade intelectual no tratamento do tema e de expressão feita com confiança e consistência. Preferencialmente, segundo a teoria que sustenta o programa de thought leadership, o líder deve participar do debate público com credibilidade. Todos esses atributos pessoais e corporativos precisam ser executados em ambiência digital e fora dela, simultaneamente. A obviedade está totalmente fora de cogitação na expressão de primazia intelectual. A história da humanidade foi abrilhantada por grandes pensadores, que se articularam na formação das ideias e dos pensamentos que nos constituem. No cenário corporativo, esse conceito de pensamento do qual nos fala Deleuze, vem agora acompanhado do complexo significado de liderança, motivando amplamente agências e organizações a disputar este território de sentidos na comunicação, já que envolve emoções, hábitos e cultura. A tarefa é instigante, mas não parece tão simples. O desafio é ter a voz reverberada em ambiência digital ocupada por elevado nível de desinformação, distorção das mensagens por crescente intensidade de ruídos, presença notável de exclusão digital, forte disseminação de preconceitos e incontáveis formas de violência, entre tantas outras questões que atravessam o debate e destroem a coesão social. Participar da conversa no extremo barulho tem exigido persistência do pensamento. Neste vulcão tecnológico e informacional, destacam-se as plataformas de redes digitais. Trata-se de territórios delimitados, acionados por dispositivos de controle e algoritmos autômatos. Na dinâmica comunicacional ainda se destacam as inteligências artificiais, que adicionam produtos de suas alucinações à pretensa composição de relatos. Por Adriana Teixeira*
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