Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 300 THOUGHT LEADERSHIP Há um abismo na interação humana. “No fundamental, as tecnologias esterilizam e calcinam o debate entre cidadãos, aquele que oxigena a esfera pública. Por uma razão simples: a esfera pública requer processos dialógicos de comunicação, pois só esses geram elaboração coletiva, compartilhada e legitimada nas diversas faces da sociedade”, assinala Eugênio Bucci, jornalista e professor titular na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), cujo livro Incerteza, Um Ensaio, publicado em 2024, vencedor do Jabuti Acadêmico, inspira esta escrita. “O padrão das plataformas sociais (que, no fundo, são antissociais) achata e comprime todos os conteúdos. Os slogans sobrepujam os raciocínios. As reações advindas da exploração de emoções fáceis e pulsionais repelem o uso da razão. E é exatamente isso que os algoritmos maximizam. A ambiência digital não tem ajudado. Tem, isto sim, atrapalhado”, arescenta. Talvez os mais distraídos venham a dizer que vivemos o presente certos de como será o futuro. Partimos, então, da premissa de que vivemos na era da incerteza. “Se entendemos que desconfiar das certezas é uma virtude, entendemos também que o complemento de criar dúvidas inéditas vai tornando a informação mais interessante: ambígua, ambivalente, ela tem dois gumes, é anfíbia. É meio trans”, escreve Bucci. O filósofo Deleuze, portanto, continua em nossa companhia: requer pensamento a ocupação de espaço de diálogo privilegiado em ambiente de comunicação pouco favorável à manutenção dos laços sociais. “A informação deveria ser vista por nós como um acesso ao conhecimento comum, com potencial de melhorar a vida coletiva, expandir as liberdades e gerar justiça social”, completa o professor titular da ECA-USP. Dentro das atuais circunstâncias da comunicação, as agências, orientadas pelos princípios corporativos, e atentas ao espírito crítico de um público qualificado, colocam-se a pensar o thought leadership: “Neste universo de comunicação, há um grande vácuo a ser preenchido”, alerta o jornalista Paulo Moura, sócio-diretor da Virta, agência com 25 anos de mercado. “Daí a importância da ampla execução do thought leadership. Há pessoas, por exemplo, que já não acompanham a imprensa tradicional e se informam também com base em redes como LinkedIn e Instagram. Buscam por profissionais e marcas referências do Paulo Moura, da Virta: Neste universo de comunicação, há um grande vácuo a ser preenchido; daí a importância da ampla execução do programa de thought leadership Eugênio Bucci, da ECA-USP: A esfera pública requer processos dialógicos de comunicação, pois só esses geram elaboração coletiva, compartilhada e legitimada nas diversas faces da sociedade © Cecilia Bastos, USP Imagens
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