Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 47 Everton Schultz, managing director do Untold e presidente da Ágora Comunicação e Assuntos Públicos Não deixe o samba morrer: comunicação na era da sustentação A gente vive um tempo curioso: nunca tivemos tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil conectar-se de verdade. No meio de tanto ruído, a comunicação precisa voltar a ser bússola. Menos volume, mais sentido. Menos presença forçada, mais relevância construída. Quando olhamos para o Brasil, esse desafio ganha outra dimensão. A pesquisa Tensões Culturais, da Quiddity, mostra um país emocionalmente cansado, desconfiado e sobrecarregado. Há um contraste claro: as pessoas seguem otimistas com a própria vida, mas desacreditadas nas instituições que representam o coletivo. E isso muda a forma como marcas e instituições precisam se posicionar. Confiança hoje é um ativo escasso. Ela não está nos discursos amplos, mas nas relações próximas. Ao mesmo tempo, cresce a fadiga digital – as pessoas querem reduzir o excesso, buscar pausas e pertencimento real. Comunicar bem deixou de ser falar com muitos, e passou a ser falar com os certos. Comunicação de impacto é sobre contexto. É entender antes de agir. Combinar dado com sensibilidade, estratégia com escuta. É entrar nas conversas com legitimidade – não interrompê-las. Não se trata de estar em todos os canais, mas de escolher bem onde e como estar. Esse movimento exige colaboração. Sem barreiras entre disciplinas, canais ou geografias. É isso que se fortalece na Ágora dentro do ecossistema Untold: mais repertório, mais conexão entre expertises e mais capacidade de construir soluções completas – da estratégia à cultura. Nesse cenário, a inteligência artificial entra como aliada. Ajuda a organizar o caos, acelerar processos e abrir possibilidades criativas. Mas não substitui o essencial: repertório, leitura de contexto e sensibilidade cultural. O diferencial continua sendo humano. Em 2026, a pergunta que as marcas devem se fazer não é mais “como posso ser notada?”, mas “como posso ser útil?”. Se o brasileiro parou de esperar pelo sistema para organizar o próprio caos, a relevância de uma marca agora é medida pela sua capacidade de ser facilitadora de conexão. Não estamos mais na era da atenção, mas da sustentação. O consumidor filtra o excesso e retém o que importa – no prato, no grupo de WhatsApp ou na pauta social. As marcas que se destacam são estas que têm estes tipos de comportamento: Validam o real: reconhecem a exaustão e oferecem caminhos práticos de alívio. Dialogam com o micro: participam de comunidades com credibilidade. Operam com a verdade: coerência é o único ativo que não desvaloriza. No fim, o desafio não é aparecer. É continuar relevante. Não deixar a conversa morrer, nem o vínculo se perder. Não deixar o samba morrer.
RkJQdWJsaXNoZXIy NDU0Njk=