Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 63 Durante muitos anos, as empresas atuaram em mercados relativamente estáveis. A comunicação acontecia em ambientes controlados e os objetivos eram claros: gerar lembrança, construir reputação, diferenciar produtos e serviços. Esse mundo acabou. Hoje, vivemos o cenário complexo que Edgar Morin antecipou – amplificado pelo imediatismo, chacoalhado por rupturas constantes, pela politização em todas as esferas de nossas existências e por um ruído informacional ensurdecedor. Fatos e mentiras circulam, em palavras, sons e imagens igualmente críveis, lado a lado, em velocidade máxima. As marcas já não disputam atenção em espaços “higienizados”: elas operam em múltiplas dimensões, interconectadas e caóticas. Nesse ambiente, a fadiga informativa e a multiplicidade de vozes exigem estratégias muito mais amplas, ágeis e sofisticadas. E há um agravante: o uso – abuso? – de inteligência artificial generativa é desenfreado. Nunca se produziu e fez circular tanto conteúdo; nunca foi tão difícil se destacar. Entre textos genéricos e deepfakes, a autenticidade e a relevância viraram ativos escassos. Nesse cenário, o papel das agências se fortalece. Mais do que nunca, comunicação eficaz exige estratégia multimeios e profundidade relacional. Em contraposição ao antigo monólogo, a comunicação dialógica, viva, em constante construção e tensão. O valor está na capacidade de criar conexões reais – entre marcas, pessoas, ecossistemas. Conexões. Se há algo que me chama a atenção, positivamente, nesses tempos de múltiplas vozes, é o fato de que, finalmente, o Brasil parece conectar-se à América Latina: por muito tempo nos isolamos, mas isso começa a mudar. Oscilações políticas na região, a retomada de acordos internacionais – como o entre Mercosul e União Europeia – e até tensões externas e movimentos xenófobos em países centrais têm contribuído para uma aproximação mais consistente: o povo de chapéu de palha que Bad Bunny levou ao canavial do Super Bowl também somos nós! Ao assumir nossa parcela nesse enorme latifúndio étnico e cultural, seja em colabs entre artistas brasileiros e de outros países latino-americanos, em cada vez mais empresas transnacionais que saem desse ensolarado e alegre canto do mundo, talvez estejamos, finalmente, assumindo, com orgulho e força, nossa identidade. Somos continentais, somos muitos e, agora entendemos, somos parte de algo maior. Parte de uma história comum, de valores e desafios semelhantes, de um porvir que, possivelmente, nunca tenha sido tão promissor e estado tão em evidência. O futuro é, cada vez mais, mestiço, diverso, rico. Não somos menos Brasil; apenas somos mais Latinoamérica. Viviana Toletti, CEO da XCOM by Atrevia Pra cima, Latinoamérica!
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