Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 71 Priscilla Caetano, sócia e COO da Aliá RP Cultura organizacional: o próximo território estratégico da comunicação Se cultura organizacional é, como se costuma dizer, “o que acontece quando ninguém está olhando”, talvez seja hora de olhar com mais atenção para ela, especialmente do ponto de vista da comunicação corporativa. Um aparente paradoxo emerge quando analisamos os dados mais recentes sobre comunicação nas empresas. De um lado, as ações de comunicação corporativa estão majoritariamente conectadas a objetivos estratégicos como reputação, engajamento e agenda ESG, como revela a 3ª edição da pesquisa Cultura de dados, mensuração e inteligência artificial na Comunicação, da Aberje, em parceria com a Cortex. De outro, quando olhamos especificamente para a comunicação interna, a cultura aparece no topo das prioridades: fortalecer cultura e orgulho entre os colaboradores é apontado como o principal objetivo da área por 86% das companhias, segundo levantamento da Aberje sobre tendências de comunicação interna. Em outras palavras, a cultura é reconhecida como central dentro das organizações, mas ainda não ocupa o mesmo lugar quando se fala da comunicação como alavanca estratégica do negócio. Esse desalinhamento torna-se ainda mais relevante diante do contexto atual do mercado de trabalho brasileiro. Segundo a consultoria Robert Half, o País lidera o ranking mundial de turnover, com uma taxa média anual de 56%. Ao mesmo tempo, o mercado de fusões e aquisições segue em ritmo elevado, tendo fechado 2025 com mais de 1.340 transações, de acordo com a Kroll, exigindo integração rápida de times, valores e formas de trabalhar. Nesse cenário de alta mobilidade profissional e transformação organizacional constante, cultura deixa de ser um conceito abstrato ou aspiracional. Ela passa a ser o que sustenta identidade, alinhamento e senso de pertencimento em meio às mudanças. E, sem isso, não é possível atingir os tais objetivos estratégicos apontados como prioritários. É justamente nesse ponto que a comunicação corporativa pode assumir um papel ainda mais relevante. Mais do que disseminar valores institucionais, cabe à área traduzir a estratégia, dar sentido às transformações organizacionais e conectar decisões corporativas ao cotidiano das pessoas. Promover cultura, nesse contexto, não se resume a campanhas ou narrativas inspiracionais. Trata-se de estruturar conversas, alinhar lideranças, dar coerência às mensagens e tornar visíveis, no dia a dia da organização, os comportamentos que materializam a estratégia do negócio. Se reputação é o que o mercado vê, cultura é o que sustenta o que acontece dentro da empresa. E, em um mundo de vínculos profissionais cada vez mais fluidos, talvez um dos maiores diferenciais competitivos das organizações esteja justamente na capacidade de comunicar, de forma consistente, aquilo que permanece quando todo o resto muda. Para a comunicação corporativa, isso representa mais do que um desafio: é uma oportunidade clara de protagonismo estratégico.
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