Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 93 Enio Campoi, sócio-diretor da Mecânica Comunicação Estratégica O papel estratégico da comunicação em tempos de incerteza Durante décadas, a comunicação corporativa foi compreendida como uma ferramenta voltada à promoção ou à gestão de imagem. No entanto, essa visão tornou-se insuficiente diante das transformações sociais e tecnológicas. Hoje, comunicar é também reconhecer a diversidade, abrir espaços de escuta e estabelecer uma presença genuína e responsável. Ainda falta, em muitas organizações, a compreensão de que comunicar não significa apenas defender posições, mas participar ativamente da sociedade, com ética, coragem e disposição para evoluir. Isso implica reconhecer contradições, acolher críticas e manter um compromisso permanente com a coerência entre discurso e prática. Nos primeiros anos da Mecânica Comunicação, o foco estava na estruturação de discursos institucionais, no controle da imagem e na mediação com a imprensa. Era uma comunicação funcional, baseada em uma lógica vertical: a empresa falava, a agência traduzia e o público escutava. Esse modelo já não responde às demandas contemporâneas. Hoje, o papel das agências se expandiu. Mais do que comunicar, precisam ajudar as marcas a escutar, dialogar e se conectar com uma sociedade plural, crítica e em constante transformação. Atuando como inteligência de mediação, cabe a elas promover coerência, inclusão e presença ativa. Não se trata mais de evitar ruídos, mas de habitá- -los com sentido e escuta real. O avanço das redes sociais, a crise de confiança nas instituições e as mudanças na forma de se consumir informações não eliminaram a importância da assessoria de imprensa, mas redefiniram sua atuação. Se antes ela era vista como ponte entre empresa e imprensa, agora precisa conectar discurso e prática, presença e consistência. A credibilidade deixou de depender apenas do que se diz – ela se constrói, sobretudo, na forma como se age. Atualmente, seu papel não é mais de um mediador de informações; é de um construtor, que auxilia as marcas na criação de narrativas, acolhendo críticas legítimas e sustentando posições públicas. Nesse novo contexto, estratégias como branded content, podcasts, eventos híbridos e conteúdos editoriais ganham força, desde que não sejam apenas instrumentos de visibilidade, mas meios de gerar valor real para uma sociedade diversa. A comunicação institucional eficaz não se impõe: ela se manifesta com criatividade, autenticidade e abertura ao diálogo. Em mais de cinco décadas de atuação na área, aprendi que é essencial para a edificação de uma estratégia para consolidação de uma marca: cultivar a escuta ativa, manter autenticidade nos propósitos e utilizar uma linguagem clara e adequada aos diferentes públicos. As novas gerações de profissionais precisarão combinar curiosidade, humildade e dedicação contínua ao aprendizado, reconhecendo que a comunicação está em permanente transformação. Mais do que técnica, será necessário compromisso – com a verdade, com a sociedade e com a construção de relações significativas e duradouras.
RkJQdWJsaXNoZXIy NDU0Njk=