Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 94 MERCADO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVA BUTIQUE Quando duas empresas decidem se unir os holofotes geralmente se voltam para cifras, ativos e projeções financeiras. No entanto, quem já vivenciou um processo de fusão ou aquisição sabe que o verdadeiro desafio não está apenas nos números. Ele aparece no encontro entre pessoas e culturas organizacionais que precisam conviver e, de preferência, complementar-se. Um levantamento da consultoria Mercer que analisou mais de 1.400 transações em 54 países mostrou que cerca de 30% das operações não atingem os resultados esperados por causa de problemas culturais. O mesmo estudo apontou que pelo mesmo motivo 67% das empresas relataram atrasos na geração das sinergias previstas. Já um relatório da McKinsey indica que entre 70% e 90% das fusões e aquisições falham em alcançar seus objetivos, e a integração cultural aparece de forma recorrente como um dos fatores mais críticos. Na prática, empresas que subestimam o impacto cultural enfrentam queda de produtividade, aumento da rotatividade de talentos e dificuldades para consolidar uma identidade corporativa. Além disso, parceiros e clientes podem perceber incoerências na forma como a empresa comunica sua nova fase, o que afeta diretamente a confiança. Assim, em vez de tentar impor uma identidade única, mais eficaz é trabalhar pela construção de uma nova cultura comum. Dessa forma, quando a comunicação intercultural é tratada como prioridade, o processo de integração torna-se mais fluido. Isso passa por mapear as culturas organizacionais, compreender ansiedades e expectativas de colaboradores, construir narrativas claras sobre o futuro da empresa e alinhar lideranças em torno de valores e práticas comuns. O acompanhamento contínuo também é essencial, com atenção a indicadores como engajamento e satisfação. Um ponto fundamental é que a comunicação não pode se limitar a comunicados internos ou discursos corporativos. É preciso envolver todos os públicos impactados: colaboradores, acionistas, clientes, parceiros, fornecedores e até a comunidade onde a empresa atua. Afinal, cada grupo enxerga a fusão ou aquisição por lentes diferentes. É sempre importante ter em mente que conflitos internos, queda de produtividade e perda de talentos costumam estar ligados a falhas de comunicação. E que o que está em jogo é dar sentido ao processo, para que cada stakeholder possa compreender e sentir-se parte. A comunicação intercultural mostra que esse caminho é possível. Mais do que uma técnica, ela precisa ser uma escolha estratégica. Empresas que a incorporam em seus processos de fusão e aquisição aumentam as chances de transformar diferenças em ativos, construindo uma cultura comum mais sólida e preparada para sustentar resultados de longo prazo. Lucas Lima, cofundador e sócio na midiaria.com A comunicação intercultural como ativo estratégico em fusões e aquisições
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