Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026

Anuário da COMUNICAÇÃO CORPORATIVA | 2026 187 Em momentos de crise extrema, como esses, qual deve ser o papel da comunicação corporativa dentro da estrutura de decisão da empresa? Eu não estava na Vale quando aconteceu Brumadinho, mas já passei por crises importantes em outras corporações em que trabalhei. Aprendi que, nos momentos de crise extrema, a comunicação corporativa deve ficar plugada ao centro decisório da empresa, seja ele qual for (a depender do tipo de estrutura). Essa conexão facilita o alinhamento das mensagens, permite um aconselhamento mais eficaz aos tomadores de decisão, reduz a quantidade de ruídos no meio do caminho e confere agilidade nas respostas demandadas pelos diferentes stakeholders, em especial, durante uma crise, a imprensa. Reconstruir confiança após eventos dessa magnitude é um processo longo e complexo. Quais foram, na sua avaliação, os fatores mais decisivos para que a Vale pudesse iniciar um processo de recuperação de credibilidade junto à sociedade, comunidades afetadas e demais stakeholders? Tudo começou com um acordo de reparação às vítimas de Brumadinho e seus familiares fechado com relativa rapidez, pouco mais de um ano depois da tragédia. A empresa também não se furtou a comunicar à sociedade todos os passos desse processo, indo frequentemente à mídia para mostrar seu andamento e cumprimento. À medida que se abriu espaço para comunicar outros assuntos além da reparação, a Vale procurou deixar claro seu profundo processo de transformação. A empresa de 2024, 2025, 2026 é completamente diferente da empresa de 2019. Essa mudança é calcada em cultura. Além disso, a Vale adotou metas agressivas em diversas dimensões ESG, o que vem se refletindo em uma melhoria contínua em ratings de sustentabilidade, por exemplo. Outro pilar importante é a escuta ativa, que, especialmente após Brumadinho, baliza o relacionamento da Vale com a sociedade em geral e, sobretudo, com as comunidades onde atuamos. Por fim, mas não menos importante, a empresa abriu- -se para uma comunicação recorrente e transparente com toda a sociedade. Acredito que esse combo de ações tem nos ajudado a recuperar a credibilidade junto a diversos stakeholders. Vale dizer que é um processo ainda em andamento. Avançamos muito, mas ainda não chegamos aonde queremos. Os dois acidentes também provocaram uma profunda reflexão sobre cultura organizacional e governança, inspirando, inclusive transformações no universo corporativo da empresa. De que maneira a área de comunicação passou a contribuir para fortalecer uma cultura corporativa mais orientada à responsabilidade, ao diálogo com stakeholders e à prevenção de riscos reputacionais? Em qualquer companhia, a área de comunicação tem a função, o privilégio e o dever de levar para dentro a percepção externa. Isso é muito importante, porque corporações, especialmente as gigantes como a Vale, tendem a ser autocentradas. Nesse contexto, nossa área tem contribuído para construir uma empresa antenada às demandas do mundo contemporâneo. Nosso CEO, Gustavo Pimenta, a quem me reporto, tem apresentado em diversos fóruns, aqui e no exterior, o conceito de mineração do futuro. Na prática, ele quer dizer que a Vale é hoje uma empresa conectada com a sociedade, que tem consciência de que práticas do passado não são mais aceitas. Se não se ajustarem a essas demandas, deixarão de existir lá na frente. A construção desse ponto de vista parte, naturalmente, do diálogo com diferentes stakeholders, de uma atuação com responsabilidade e de preocupação genuína com a reputação. Importante mencionar que toda a transformação da companhia passa pela comunicação interna, essencial para o cascateamento das mensagens-chave para milhares de colaboradores diretos e indiretos. Na sua visão, quem é o “guardião da reputação” em uma empresa global como a Vale? E que lições desse período poderiam servir de referência para outros profissionais de comunicação que enfrentem crises de grande impacto? Todos os funcionários de uma empresa são guardiões de sua reputação. Qualquer um(a) pode provocar uma crise corporativa no mundo atual, em que a informação é fluida, veloz e tem muito menos intermediação do que no passado. Isso significa que todos têm de ficar atentos ao que fazem e devem lembrar que não há mais distinção entre CPF e CNPJ. Dito isso, em uma leitura, digamos, mais técnica, o principal guardião da reputação em uma corporação, nos dias de hoje, é o CEO. Afinal, se a reputação é ativo vital, sem o qual uma empresa não existe, quem mais deveria, em última instância, cuidar dela?

RkJQdWJsaXNoZXIy NDU0Njk=